O cenário é um clássico do mundo do fitness: ainda antes de nascer o sol, há quem saia para correr, orgulhoso por não ter comido desde a noite anterior. A ideia por trás disto é simples: como o corpo não recebeu pequeno-almoço, vai buscar logo às reservas de gordura. A realidade científica, porém, é bem mais complexa - e, para muita gente, até desanimadora.
Porque é que o exercício em jejum parece fazer sentido - e só em parte está certo
Depois de uma noite de sono, as reservas de hidratos de carbono no organismo ficam um pouco mais baixas. Os especialistas falam de menos glicogénio nos músculos e no fígado. Ao mesmo tempo, a insulina está em níveis reduzidos, o que, em teoria, facilita o acesso às gorduras.
É precisamente daí que nasce a teoria popular: havendo menos hidratos disponíveis, o corpo deveria, de forma automática, queimar mais gordura. Do ponto de vista do metabolismo, uma parte desta ideia está correta. Os estudos mostram que quem corre antes de comer utiliza, de facto, uma percentagem mais elevada de gordura como fonte de energia.
"Ter uma maior percentagem de gordura no gasto energético durante o treino não significa automaticamente menos gordura corporal no fim da semana."
A desvantagem é que o organismo não olha apenas para aquela sessão isolada, mas para o dia inteiro. O que acontece de manhã é compensado mais tarde, muitas vezes de forma discreta.
Oxidação de gordura vs. perda de gordura: a diferença decisiva no treino em jejum
O maior erro de raciocínio está numa palavra pequena: "durante". Ao treinar em jejum, o corpo realmente usa mais gordura como combustível nessa meia hora ou hora. Mas isso não diz nada sobre se as reservas de gordura vão, de facto, diminuir ao longo de dias e semanas.
O organismo procura constantemente manter o equilíbrio. Se de manhã recorre mais às gorduras, ao longo do dia tende a usar mais hidratos de carbono ou a armazenar com maior facilidade as gorduras ingeridas. No fim, o que conta é o saldo total nas 24 horas - não o momento passado na pista ou no percurso de corrida.
Quem pensa: "Hoje de manhã queimei bastante gordura, por isso posso exagerar mais tarde", cai depressa numa armadilha. As calorias que chegam ao prato ao jantar não querem saber se de manhã foram usados mais lípidos ou mais hidratos de carbono.
Quando o depósito está vazio: menos energia, menos calorias
Há ainda outro problema: sem combustível suficiente, o treino raramente decorre ao mais alto nível. Com as reservas de glicogénio vazias ou quase vazias, muitas vezes falta energia para manter ritmo e intensidade. Isso sente-se como:
- cansaço mais rápido
- pernas pesadas e menos vontade de avançar
A consequência é directa: a sessão fica mais curta ou mais lenta, e o total de calorias gastas desce. Mesmo que a percentagem de gordura usada seja superior, o resultado final pode ser pior do que num treino em que o corpo está devidamente alimentado.
Um exemplo prático:
- Corrida sem pequeno-almoço: 300 calorias, das quais 60 % vêm da gordura → 180 calorias de gordura
- Corrida depois de uma pequena refeição: 500 calorias, das quais 40 % vêm da gordura → 200 calorias de gordura
Com um pouco de energia antes do treino, é possível sustentar mais intensidade e mais duração - e, no final, até gastar mais calorias provenientes da gordura.
O efeito boomerangue: fome depois do treino em jejum
O corpo não gosta de défices energéticos. Quem treina em jejum envia um sinal claro: "situação de emergência". Muitas pessoas sentem isso mais tarde de forma evidente - sob a forma de fome intensa a meio da manhã ou de um pequeno-almoço especialmente reforçado.
"As calorias que se gastaram com tanto esforço acabam muitas vezes por regressar ao prato pouco tempo depois."
A isto soma-se o lado psicológico: "Já fui correr, mereço isto." Este tipo de raciocínio leva facilmente a pães extra, creme doce ou petiscos no escritório. Muitas vezes, estas calorias adicionais ultrapassam a vantagem relativa da maior queima de gordura a curto prazo durante o exercício.
Há ainda um ponto que muita gente subestima: o chamado efeito afterburn, ou EPOC. Depois de sessões muito exigentes, o corpo continua durante horas a gastar energia adicional. Só que essa intensidade elevada é muito mais difícil de alcançar em jejum. Por isso, quem dá valor a um afterburn forte costuma sair a ganhar com um treino bem alimentado.
Riscos escondidos: hormonas do stress e perda de massa muscular
Fazer desporto com o estômago vazio significa, para o organismo, uma situação de stress. Como resposta, o corpo liberta mais cortisol. Em quantidades moderadas, isto pode ser útil, mas um nível persistentemente elevado desta hormona do stress pode influenciar a distribuição da gordura de forma desfavorável - normalmente para a zona abdominal. Somam-se retenções de líquidos, que escondem os progressos na balança ou ao espelho.
Ainda mais problemático para a composição corporal é a possível perda de massa muscular. Quando quase não existe glicogénio e o treino, mesmo assim, se torna mais intenso ou mais longo, o corpo precisa de glucose. Se não encontra hidratos de carbono, começa a produzir nova energia a partir de aminoácidos - se necessário, à custa dos próprios músculos.
"Quem treina duro em jejum com regularidade arrisca perder precisamente o tecido que mantém a silhueta firme e aumenta o gasto energético em repouso."
Os músculos também gastam calorias quando estamos em descanso. Se a massa muscular diminui, o consumo diário de energia baixa - mesmo quando estamos apenas no sofá. A longo prazo, isso dificulta qualquer tentativa de perder gordura. Por isso, qualquer estratégia de redução de peso deve ter também em conta a proteção da massa muscular.
A verdadeira alavanca: défice calórico e não a hora do treino
No fundo, todos os estudos chegam à mesma conclusão simples: o que conta é a diferença total entre energia ingerida e energia gasta ao longo de dias e semanas. Quer se corra de manhã antes do pequeno-almoço, quer se treine à noite depois do jantar, isso só tem um papel secundário se o balanço final não for o adequado.
O treino em jejum pode ser útil quando faz parte de um plano global. Por exemplo, quem adia o primeiro lanche do dia e, por isso, acaba por comer menos, pode tornar mais fácil a criação de um défice. Nesse caso, o efeito não vem de uma qualquer "queima turbo de gordura" logo pela manhã, mas sim da ingestão calórica mais baixa.
Desta forma, há também uma ideia que alivia muita gente: a suposta "oportunidade perdida" de queimar gordura quando se come uma banana antes do treino simplesmente não existe. Pelo contrário: uma pequena refeição pode tornar a sessão mais intensa e mais longa, o que, no conjunto, costuma resultar numa balança energética mais favorável.
Para quem o treino em jejum pode fazer sentido - e para quem não
Apesar de todas as críticas, o desporto sem pequeno-almoço tem o seu lugar - desde que em condições claras. Muitas pessoas sentem-se bem a mexer-se de manhã sem uma refeição pesada: não ficam com sensação de enfartamento, ganham tempo e sentem o corpo mais leve.
O treino em jejum é sobretudo adequado para:
- sessões de resistência calmas, em zona de pulsação baixa
- praticantes experientes que conhecem bem o próprio corpo
- pessoas que se sentem claramente melhor assim do que com o estômago cheio
É menos indicado para:
- intervalos intensos e corridas longas e exigentes
- treinos de força pesados com foco em hipertrofia
- pessoas com tendência para problemas de circulação ou hipoglicemia
Se surgir tontura, náusea, visão turva ou fraqueza extrema, deve interromper-se a experiência de treino em jejum e passar a começar com uma pequena fonte de energia.
Dicas práticas: como conjugar treino e alimentação de forma sensata
Em vez de seguir cegamente uma moda, vale a pena adoptar uma abordagem pragmática. Algumas recomendações práticas:
- Para corridas curtas e tranquilas de manhã, o treino em jejum pode funcionar - no máximo 30–45 minutos, a ritmo moderado.
- Para sessões de força ou intervalos intensos, é melhor comer antes uma pequena porção de hidratos de carbono, por exemplo uma banana ou uma tosta.
- Ao longo do dia, convém manter um défice calórico ligeiro, cerca de 300–500 calorias abaixo das necessidades totais.
- Não descuidar a ingestão de proteína para preservar a massa muscular, por exemplo quark, iogurte, ovos ou leguminosas.
- Beber com regularidade, porque a falta de líquidos aumenta a fadiga e a quebra de rendimento.
Quem também quiser perceber melhor expressões como "afterburn" ou "oxidação de gordura" deve guardar esta distinção: a oxidação de gordura descreve apenas qual é o combustível que está a ser usado naquele momento. O afterburn refere-se ao gasto energético extra depois de sessões muito exigentes, que tende a ser maior quando os músculos estão bem abastecidos.
No fim, o que faz diferença é um conjunto coerente formado por exercício regular, défice calórico ligeiro, sono suficiente e gestão do stress. O treino em jejum pode fazer parte disso, mas não é obrigatório. O essencial é que a rotina escolhida possa ser mantida durante meses - sem fome permanente, sem frustração constante e sem perda da massa muscular conquistada com esforço.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário